Turismo de caça parte 6, big 5, o Leão

Dois leões machos com um rebanho de búfalos ao fundo.

Após um longo tempo sem escrever devido a uns probleminhas de saúde, voltei a ativa, e esse ano espero ter muito historia pra contar, vou fazer uma viagem a Africa em junho, e em setembro ou outubro espero dar um pulo na Grécia ver uns amigos e dar uma caçada por lá também, quem sabe até voto por lá, já que não transferi meu domicilio eleitoral ainda. Bom voltando a falar de caça, pra muita gente hoje em dia, e especialmente no Brasil, caçar um leão é algo inimaginável, pra alguns até um pecado, mas ainda é possível, é caro, mas é possível. No Brasil em geral a maioria dos caçadores não gosta de caçar predadores, só em caso de causarem algum prejuízo, ou ameaçar causar prejuízo. Mas pra muitos fazendeiros na Africa ainda é algo que faz parte do dia a dia, leões atacam o gado de tempos em tempos, e como outros predadores, eles percebem que os animais domésticos são fáceis de matar e vão querer repetir a dose, isso quando não ficam morando na area esperando cair a noite pra pegar mais algum boi. Como muitos de vocês já devem er visto em documentários, leões na maioria dos casos vivem em grupos e um grupo de leões tem um grande apetite, se o povo aqui reclama de onças imagina um grupo de leões, sendo que cada macho adulto pesa entre 150 e 250 kg, e uma fêmea entre 120 e 182 kg, se lembrarmos que a nossa onça pintada do pantanal, que é a mais pesada de todas, fica entre 100 até, segundo alguns registros 137 kg, já dá para imaginar o estrago que um grupo de leões pode fazer numa fazenda. E porque eu falei sobre o prejuízo que os leões causam? É porque o pessoal não entende que quando damos um valor econômico aos leões, assim como a outros animais selvagens, a presença desses animais, leões inclusive, passa a ser desejável. Assim como ninguém gosta de ver uma lavoura atacada por alguma praga de insetos, nenhum fazendeiro ira poder conviver com um bando de leões em suas terras, mas se a “praga” passa a ser um recurso, algo que gera renda, ai a coisa muda de figura. No Zimbabwe, nos anos 50 do século passado, varias fazendas resolveram tentar ser mais eficientes, e percebendo que existia uma grande comunidade de animais nativos que vivia em terras secas, com pouca pastagem de qualidade ou apenas arbustos, pensaram que ao invés de retirar toda a vegetação nativa, para depois formar uma pastagem, e explorar apenas uma espécie animal, e depois ter que lidar com a degradação das pastagens, secas, porque não manter essa vegetação e os animais, e apenas manejar tudo isso? E assim fizeram, a intenção era produzir carne em áreas que não eram ideais para a agricultura ou criação de gado, e ao longo do tempo perceberam que o solo melhorou, havia pouca ou nenhuma necessidade de reformar ou adubar a vegetação, ao longo do tempo perceberam que havia um mercado de turismo de caça, que não só rendia pela hospedagem, mas como muitos caçadores estrangeiros não podem levar a carne de volta pra casa, a carne ainda ficava para ser vendida localmente. No inicio os animais que interessavam a esses fazendeiros eram principalmente os herbívoros que tinham uma carne saborosa, como alguns antilopes, os búfalos, e com o tempo foram refazendo toda a comunidade de espécies animais que haviam originalmente, e assim vieram os leões.

Uma dessas fazendas, chamada Bubye Valley Conservancy, uma área enorme, recebeu 17 leões, hoje em dia nessa área eles tem mais de 500 leões hoje em dia, e os leões estão entre os animais que podem ser caçados ali, na verdade eles tem de ser caçados porque caso contrario podem ficar em numero excessivo e prejudicar as populações de antilopes e búfalos da area, que também geram renda. Ou seja, a gente olha e vê mato, mas tudo ali é produtivo, é uma exploração controlada da savana, e essa exploração fez com que uma área antes destinada a criação de gado, voltasse a ser o que era antes de ser colonizada, inclusive com a flora e fauna originais. Portanto hoje em dia com essa ladainha de parar com a caça de leões, vc acabaria extinguindo os leões nessas areas particulares, assim como não há leões em fazendas de gado. E nenhum desses “ambientalistas” irá abrigar um leva na sua casa ou comprar uma área para os leões viverem, ou seja sem a caça de leões, o mundo ficara com menos leões, por isso eu defendo a caça de leões.

Falando da caça de leões propriamente, aonde existem populações razoáveis de leões a caça deles não é tão complicada como a do Leopardo, o Leão tem uma vida relativamente mansa na savana, especialmente um macho, nenhum bando de hienas peita um leão macho adulto, os outros predadores também não se metem com eles, ao contrario, os evitam, apenas elefantes, rinocerontes e algum búfalo podem mesmo por um macho adulto pra correr. Por isso os leões machos são um pouco displicentes, andam pela Africa como se o continente fosse deles, claro que hoje em dia aprenderam a ter medo de gente, massuda coisa interessante é que todos os animais na Africa sabem que os humanos não enxergam bem a noite, então embora leões tenham medo de gente de dia, de noite eles tem menos, na época que trabalhava com safaris não era incomum de manhã ver pegadas deles passando pelo acampamento, e principalmente em volta do lugar aonde tirávamos a peles e carne dos animais, tinha noites que eles ficavam rondando a noite inteira ali, como gatos vendo o peixeiro limpar o peixe. O principal método de caça de leões é através de ceva, e nas companhias de safari se recomenda sempre que o caçador compre uma licença para um animal com muita carne, em geral um hipopótamo, algumas vezes búfalos e na Africa do Sul que está cheia de girafas, se usam girafas também. Existe uma infinidade de animais que podem ser usados, mas é importante que seja uma quantidade que o leão não possa terminar numa noite só, assim é garantido que ele volta no dia seguinte, a altura que a isca é colocada é importante, tem de ser menos difícil de ser atingida como as iscas de leopardo, mas tem de ficar fora do alcance das hienas, em geral se ela ficar pendurada meio longe do galho dificulta para um leopardo comer, se bem que mesmo que ele alcance ele come bem menos que um leão. Também é importante cobrir com folhas ou capim a carne para que não seja vista pelos abutres. para a espera tem gente que prefere uma espera em cima de uma arvore, tem gente que faz no chão, vai depender de como for o lugar, podendo ser elevada é sempre melhor, embora essa semana fiquei sabendo do filho de um amigo que trincou a coluna quando caiu de um machan, como eles chamam o local de espera elevado, essa palavra vem da lingua Hindú, aonde eles costumavam fazer esperas em cima de arvores para caçar tigres e outros bichos também, se fosse comparar um machan com um girau, o machan é uma plataforma construída em cima de uma arvore grande, sólido, o girau que se conhece no Brasil já é pra experimentados, eu nem tentaria por um americano idoso em cima de um e deixar ele ali sozinho na rede. Na foto abaixo tem uma foto de uma das ultimas cevas de leão que eu fiz, na hora não tive a idéia de por alguém do lado da isca, era uma traseiro de boi, para dar uma idéia da altura que estava do solo e do tamanho do da isca, usei uma corrente para que não levassem a carne embora, amarrada a um galho muito forte, a parte mais baixa estava a mais de 1,5 metros altura do chão para que nenhuma hiena alcançasse, sendo amarrada numa corrente ela também ficava meio frouxa e mais difícil dos leões arrancarem pedaços e comerem tudo de uma vez, e a idéia é que sobre comida para uma segunda ou terceira visita para que você possa então possa fazer a espera. Nessa ceva ai apareceu o leão do caçador de arco que eu conto a historia abaixo.

No circulo vermelho esta a isca de carne que era o quarto traseiro de um boi, coberto por folhas.

A ceva não é a única forma de caça a leões, até os anos 90 (não sei se ainda se permite caça de leões por lá), na republica centro africana a caça de leões com ceva não era permitida e ai se usavam pisteiros, e se seguia os leões elas pegadas, na minha opinão, deve ser uma caça fantástica, mas se vc não tiver um pisteiro excelente fica inviável. Por incrível que pareça mesmo os leões sendo animais grandes deixam poucas pegadas e conseguir avistar um felino imóvel no meio da vegetação, é quase impossível, e nesse caso o caçador iria surpreender os leões, o que faria os leões ficarem bem pouco felizes e eles muito provavelmente deixariam isso bem claro aos caçadores, dar carga não seria algo inesperado, ao contrário, bem provável.

Uma coisa interessante que se fala sobre leões, é que ao atacar, dar carga, um leão sempre ruge ou rosna, e no caso das leoas, se vc tiver em grupo e fizer muito barulho, a leoa pode até mudar de idéia e ir embora, bastando ter ameaçado atacar, uma carga falsa, ou “mock charge” em inglês, e dizem que os machos não fazem isso, quando eles resolvem eles não mudam de idéia, eles atacam mesmo. Eu nunca fui atacado por um leão macho, mas pelo que tenho visto ultimamente em videos no youtube, acho que mesmo um macho pode acabar mudando de idéia, claro que se eles estiverem feridos é outra historia. A caçada mais desastrosa que eu participei foi de leão, na verdade eu tentei rastrear o bicho após que o caçador o feriu, o caçador era um cara que veio caçar de arco, e é nessa hora que vc vê que o guia de caça tem de ser meio psicólogo também, o cara veio pra ficar 2 semanas, e parecia estressado, o objetivo principal dele era caçar búfalo, crocodilo, leão e hipopótamo. O arco é uma arma muito boa, eu tenho um, gosto de todos, mas atualmente tenho um arco tradicional , e embora tenha muita fé nos arcos, para qualquer membro do big 5 a coisa muda um pouco de figura. E outra coisa muito importante é que o arco demanda prática, todo dia, qualquer tempinho que tiver livre, tem que estar ali atirando, o caçador em questão não praticava, resultado acabou não matando nada com o arco, mas no caso do leão foi pior, após caçar o hipopótamo com um rifle, ele queria porque queria pegar o leão com um arco, colocamos as iscas, o leão apareceu, uma dica pra ver se tem leão macho na isca é olhar se há pelos longos na carne da isca, ai ja te dá uma idéia, isso no meu tempo, hoje em dia com as cameras de trilha fica mais fácil. Construimos um machan, o caçador e meu chefe ficaram la em cima e eu na caminhonete esperando o chamado pelo radio. lá pelas tantas, meu chefe me chama pelo radio, e fala pra ligar a caminhonete e ir la pegar eles, ao chegar ja vi pela cara dos dois que a coisa tinha dado errado, tentamos alegrar o caçador, estava escuro, de manhã cedo iriamos voltar la pra achar o leão. Quando a caçador foi dormir meu chefe me confirmou que o cara tinha errado, e se acertou o leão tinha sido na barrigada, o pior tipo de tiro. De manhã estávamos lá, o inicio da trilha estava fácil, deu pra ver algumas manchas de sangue, que confirmou as piores expectativas, a flecha acertou e não deve ter sido um tiro fatal. Nesse dia ficamos das 7 da manhã até as 15:00 tentando achar o leão, estávamos em uns 20, entre esses 20 tínhamos uns 5 pisteiros de verdade, mas era uma vegetação de floresta de galeria, típica do vale do rio Luagwa, dessas que perde quase todas as folhas então o chão estava todo coberto de folhas secas, o solo estava duro, aonde ele cortou alguns rios secos com areia, ai conseguiamos achar algumas pegadas, ainda achamos mais manchas de sangue, mas foi só, ainda nessa manhã dei de cara com uma leoa, meu chefe com outra, o que até deu uma certa esperança, que elas deveriam estar ali porque o macho estava perto, mas se estava não o achamos, foi uma pena, portanto se forem caçar de arco sempre pratiquem bem, o caçador deve a todo animal uma morte o mais rápida e indolor possível. Por outro lado, uma das caçadas mais fáceis que eu ja vi, foi também de leão, era o primeiro dia de caçada, o caçador era um italiano, ele queria um leão e mais nada, fomos atras de um hipopótamo, abatemos, e ja fomos pendurar as iscas, enquanto eu e a turma pendurávamos um pedaço de hipopótamo numa arvore, o Italiano e o meu chefe foram dar uma volta até a beira do rio, e lá na beira do rio, embaixo de uma arvore, estava um leão macho, grande, dormindo, o Italiano abateu o leão em menos de cinco minutos depois de descer do carro.

Aqui a foto da pele do leão morto por Harry Wolhuter e a faca que salvou sua vida.

Harry Wolhuter na época em que o ataque aconteceu.

Quando se abate um leão, parece que demora um pouco pra cair a ficha, vc vai se aproximando do animal abatido, o coração ainda batendo forte, e ai vc começa a reparar que o leão é só músculo, vc tenta movê-lo, e não consegue, ele é muito pesado, ai vc começa a reparar nas patas, nas garras, e ai resolve abrir a boca dele pra ver os dentes, e aos poucos começa a perceber que não fosse a tecnologia moderna, um ser humano teria muito pouca chance de abater um leão, existe apenas um caso de um homem que foi atacado por um leão, e não só sobreviveu, como matou o leão. Ele nunca mais foi o mesmo também, seu nome era Harry Wolhuter. Em 1903, Harry Wolhuter estava trabalhando no parque Kruger e ao voltar de uma patrulha ao entardecer, foi atacado por 2 leões, um leão pulou na traseira do seu cavalo que começou a pinotear e pular, que acabou derrubando o Harry, que caiu quase em cima do segundo leão, esse leão a abocanhou pelo ombro direito e começou a puxa-lo para o mato, enquanto o outro leão perseguia o cavalo e ambos eram perseguidos por seu cachorro Bull. Ele havia perdido sua arma quando o cavalo começou a pular ao ser atacado pelo leão, ai ele se lembrou de uma faca que ele havia comprado e estava meio solta na bainha e vivia caindo, rezou muito e pra surpresa dele, a faca estava ali na bainha, ele pegou uma faca com a mão esquerda, uma faca normal, lâmina de 6 polegadas, e começou a esfaquear a leão, ele esfaqueou 2 vezes o leão atras da paleta esquerda, e assim que o leão o largou ele esfaqueou o leão na garganta, que acabou cortando a jugular e ai finalmente o leão foi embora, Quando esse leão foi embora Harry se levantou com dificuldade, percebeu que não conseguia mexer seu braço direito, e lembrou que estava desarmado, e ainda havia outro leão que poderia voltar e procurou um arvore que pudesse subir para se abrigar, o que foi difícil com um braço só, após achar uma percebeu que poderia desmaiar e usou seu cinto para se amarrar na arvore. Após algum tempo o outro leão apareceu, mas para sua sorte seu cachorro também, que ficava latindo e distraindo o leão que perseguia o cachorro ao invés de tentar subir na arvore. Eventualmente uma turma de trabalhadores passou pela estrada, e embora não estivesse com armas de fogo, como estavam em grande numero e com machadinhas e com mais cachorros, acabaram ajudando Harry a descer da arvore e escoltaram ele para um lugar seguro, foram seguidos pelo leão mas o leão manteve distancia.
Representação artística da ataque a Harry Wolhuter.

Finalizando, leões são animais fantásticos, são a essência da Africa, é uma caçada extremamente emocionante, quem falar que é fácil, não sabe nada de caça, ficou jogando x-box ou play station, ficar cara a cara com um leão selvagem é algo que simplesmente não tem como se explicar é algo que tem de se experimentar uma vez na vida.

Luis Almeida

Luis Almeida

Formado em Zootecnia, na UNESP -Jaboticabal, fez cursos de animais silvestres na ESALQ, morou Africa do Sul e Zambia nos anos 90, trabalhou como aprendiz de caçador profissional nesses países, em 2004 se mudou para a Grécia e desde 2013 fica indo e vindo entre Brasil e Grécia, sempre caçando aonde tem oportunidade e pesquisando novos destinos de caça.

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