Tirando elefantes de uma plantação de manga.

Eu estava lendo esse artigo da True Green Alliance, e embora pelo titulo não pareça-se algo que se aplique ao Brasil, na verdade temos vários exemplos aqui no Brasil, toda semana algo se houve nos jornais, televisão e internet.
Vou começar com a tradução do artigo e depois explicar aonde ele se aplica ao Brasil.

“A TGA (True Green Alliance) gostaria de congratular todos da equipe que capturaram e relocaram os 3 jovens elefantes que andaram atacando as fazendas de manga da região de Hoedspruit nos últimos dias. Pareceu ser uma operação bem planejada e executada e que teve seus objetivos alcançados. É sempre bom quando um plano dá certo. Todos os envolvidos portanto tem de receber parabéns ao trabalho bem feito. Eu digo isso com toda a honestidade porque eu sei bem tudo o que é necessário para executar uma operação dessas.
Contudo a minha preocupação esta nos 3 elefantes “mal comportados” que foram retornados a um santuário de vida selvagem, a area conhecida como “grande parque nacional Kruger”, que poucas pessoas entendem que já esta com um numero excessivo de elefantes, excedendo em muito sua capacidade suporte. Nos últimos 50 anos os elefantes reduziram os habitats arbóreos em mais de 95%, segundo as estimativas do próprio Parque Kruger.

Elefante asiático que aprendeu a dar curto circuito na cerca elétrica.


Isso mudou o caráter fisico e visual dos habitats do parque, que de um habitat de savana arborizada, para uma vegetação arbustiva em degradação. Como consequências isso já causou a perda de muitas espécies de plantas e animais, uma extinção local, também houve a extinção de varias habitas sensíveis com consequente extinção dos organismos que dependiam dele. Essa mudança de habitat esta pondo em risco a existência dos rinocerontes negros do parque, e tem afetado também outras espécies como a agua marcial (Polemaetos belicosus) e o calau terrestre ou gigante (Bucorvus leadbeateri), aves que são grandes atrações do parque, mas há varias outras espécies ameaçadas por essas mudanças.
Aguia Marcial

Calau Gigante.

O parque nacional Kruger não foi reservado para a proliferação incontrolável de elefantes, ele foi criado com o propósito de manter a totalidade da diversidade biológica (biodiversidade) da região, e isso não esta acontecendo porque o parque está com elefantes demais, e eles estão destruindo toda a vegetação. Existe uma ponto na história em que a sociedade tem de enfrentar a realidade, e “tomar o remédio amargo” como diziam antigamente, “o que arde cura, o que aperta segura”. Se for para proteger a herança natural da nação, a hora chegou.
Se o SANPark (Departamento de parques nacionais da Africa do Sul) não começar a reduzir a população de elefantes no Kruger, LOGO e DRASTICAMENTE, não restará nada de relevante a proteger.
Como as coisas estão nesse momento, será muito difícil para essa união de homem-natureza ajudar os habitats a recuperarem a sua gloria inicial, que deveria ser a prioridade principal, porque sem habitats saudáveis, a fauna não irá sobreviver. Não há sentido portanto em pôr o carro na frente dos bois, tentar salvar os elefantes do Kruger (que não precisam de salvação), um por um, sem que nos ocupemos do problema muito maior de proteger os solos do parque e restaurar seus habitats.
Os elefantes deveriam estar entre os últimos organismos do parque a aparecer na lista de prioridades de conservação.
A salvação dos 3 jovens elefantes que atacaram as plantações de manga, na minha opinião (Ron Thomson), não foi a opção certa.
No interesse do objetivo primário de manejo da área do “grande parque Kruger”, para perpetuar a biodiversidade do parque indefinidamente, esses 3 elefantes deveriam ter sido abatidos.
Esse relato feito as pressas, foi publicado no afã de motivar nos sociedade a começar a “pensar” de maneira responsável e inteligente nas opções de manejo de fauna. Deixar as emoções determinarem nossas ações, NÃO será a maneira de salvar a fauna africana do extinção total.”

Resumindo o que o autor, Ron Thomson, quer dizer com esse relato dramático, é que mesmo uma área grande como o parque Kruger, que tem 1.948.500 hectares, ou mesmo a área do “grande parque kruger”, que junta diversas reservas privadas a área do parque nacional Kruger, e quase dobra a área total de proteção, que sobe pra 3.394.800 hectares, na atualidade é capaz de garantir a segurança dos habitats sem o manejo humano.
Isso acontece, porque na Africa do Sul, assim como no resto do mundo, as áreas de conservação, ou as áreas naturais, estão ficando cada vez mais isoladas, como ilhas num mar de propriedades agrícolas. Aonde antigamente os animais eram livres para se deslocar em busca de comida de acordo com as épocas do ano ou ciclos de seca ou chuvas que as vezes duram 10 anos na Africa, e provavelmente em outros continentes também, agora cercados por propriedades rurais, varias espécies animais estão ficando “ilhadas” em parque nacionais ou outros tipos de areas de conservação.

Foto de uma propriedade em que uma onça é a principal suspeita da morte de 49 carneiros.

Outro ingrediente do drama da fauna no mundo moderno, é que as propriedades rurais na sua grande maioria produzem comida para os seres humanos, comida que outros animais também podem aproveitar, elefantes são animais extremamente inteligentes, e poderosos, conseguem até derrubar cercas elétricas, algumas até chegam a 5 mil volts, e propriedade nas vizinhanças de parques nacionais acabam sofrendo com as visitas dos elefantes, que em muitos casos sabem que devem invadir a fazenda a noite e retornar ao parque de manhã, e sabem que estão seguros no parque, outro fator que aumenta a superpopulação de elefantes no Kruger.

Imagem de um vídeo em que um bando de queixadas sai do milharal e chega perto da casa do produtor rural.

Os casos brasileiros que temos visto recentemente mostram onças, pardas na maioria, aparecendo em areas rurais, algumas vezes atacando rebanhos, além de onças, temos capivaras, e porcos do mato causando prejuízos em lavouras, macacos prego no estado de SC aprenderam a utilizar o pinús das fazendas de madeira da região de Canoinhas, como recurso alimentar em épocas de escassez de outras fontes alimentares, o problema é que ele come a gema apical do pinús, isso acaba matando ou parando o crescimento da arvores. Isso mostra duas coisas, uma é que esses animais estão se adaptando ao ambiente transformado pelos seres humanos, e a outra é que as áreas naturais existentes já devem estar com sua capacidade suporte no limite para algumas espécies animais. Fazendeiros que possuem grandes áreas de reserva nos estados de MT, GO e TO relatam que porcos do mato, patos selvagens e pombas entre outros animais, aprenderam a usar as plantas cultivadas nessas propriedades com fonte de alimento, e com isso imagino que podem até ter aumentado suas populações além da capacidade de serem regulados pelos predadores locais que restaram, uma vez que muitos predadores são territoriais, mesmo uma maior quantidade de presas talvez não motive esses predadores e serem mais tolerantes com concorrentes da mesma espécie.

Capivaras no Parque Barigui em Curitiba.

Macaco Prego manuseando uma pinha de um pinús.

Por isso aqui também é preciso que comecemos a realizar um manejo de fauna, dentro e fora de nossas áreas de conservação, uma vez que grande parte do problema é sentido nas propriedades rurais, e segundo estudos da EMBRAPA, os produtores rurais são os maiores responsáveis pela preservação ambiental, seria interessante que se começasse por essas áreas esse manejo, seja como relocação de animais que porventura estejam em excesso, para áreas aonde sejam raros ou estejam extintos, ou pelo abate por controle ou caça esportiva. O que não se pode é achar que o certo é cruzar os braços e esperar pela natureza restaurar tudo. A mídia constantemente mostra efeitos negativos da atividade humana no meio ambiente, seja poluição, seja desmatamento, e pede da população e dos governos mudança de atitudes, acho que no caso da fauna o mesmo é necessário, é necessário um manejo das espécies da nossa fauna, para que as mesmas continuem a existir e quem sabe voltar a serem abundantes. A legislação brasileira não permite ou prevê muitas das formas de manejo utilizados em países mais avançados nessa área de manejo de fauna, e existe muita falta de informação a respeito da fauna brasileira, na minha opinião isso não deveria ser empecilho, já que existem milhares de profissionais, alguns já fazem pesquisas nessa area, e outros que poderiam começar a atuar nesse campo também. Permitir a iniciativa privada fazer parte dessa pesquisa e da parte operacional seria útil visto que pesquisas cientificas no Brasil não recebem uma quantidade tão grande de investimentos, e uma interação maior entre pesquisadores e produtores rurais pode ajudar ambos a acharem um meio de convivermos com a fauna, que deveria ser um recurso e não uma fonte de prejuízo.

Luis Almeida

Luis Almeida

Formado em Zootecnia, na UNESP -Jaboticabal, fez cursos de animais silvestres na ESALQ, morou Africa do Sul e Zambia nos anos 90, trabalhou como aprendiz de caçador profissional nesses países, em 2004 se mudou para a Grécia e desde 2013 fica indo e vindo entre Brasil e Grécia, sempre caçando aonde tem oportunidade e pesquisando novos destinos de caça.

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