O que os criatórios de animais silvestres tem de diferente dos pesqueiros?

Os criatórios de animais silvestres no Brasil tem tido muitos problemas em se disseminar como uma atividade comercial, um dos maiores problemas é a legislação, isso faz muitos que pensam em se dedicar a essa atividade desistir da idéia, e nem dá pra culpá-los, são inúmeras exigências a se obedecer, e como sempre o cidadão é tratado como suspeito, mesmo tentando fazer a coisa certa.
Com os pesqueiros é diferente, todo mundo hoje em dia ja foi ou ja passou na frente de um pesqueiro, estão distribuídos por todo o Brasil, com exceção, talvez, de lugares menos povoados ou muito secos, aonde não haja condições de se manter um lago ou barragem, e os pesqueiros são um exemplo brasileiro do que o uso comercial de espécies nativas é capaz de fazer em matéria de disseminação e conhecimento das mesmas, mas vamos começar pelo principio.

O inicio da piscicultura no Brasil

Embora alguns relatos dizem que as primeiras tentativas de piscicultura no Brasil ocorreram durante a invasão holandesa no Brasil, aonde os holandeses construíram tanques perto do mar e canalizavam água do mar para os tanques, fora isso não há muitas menções sobre criações de peixes, até os anos 30, quando um cientista gaúcho chamado Rodolpho T. W. Von Ihering, que havia estudado fora do Brasil por alguns anos, e desde 1904 se dedicava ao estudo de peixes, inventou o processo chamado de hipofisação, em 1934, aonde ele conseguia induzir a reprodução de peixes em cativeiro, mesmo sendo espécies que precisavam migrar para poder reproduzir, hoje em dia é um processo altamente conhecido e utilizado em varias piscicultura pelo mundo afora. Von Ihering ainda atuou em vários projetos de criações de peixe no nordeste do Brasil e até foi convidado pelo ministro da agricultura, Fernando Costa para organizar a criação da estação de piscicultura em Pirassununga, que ainda existe hoje, perto da cachoeira de Emas. A estação tinha o objetivo principal de produzir e distribuir alevinos em grande escala, para promover o re-povoamento em águas naturais ou represadas artificialmente. Ainda em 1940 ele escreveu um livro, “Dicionário dos animais do Brasil”. Mas desde então não houveram grandes tentativas de reproduzir espécies de peixes nativas, houve a introdução do black bass, da tilapia, truta arco iris, mas nada voltado as nativas.

Primeira escada de peixes construída no Brasil, entre 1920 e 1922, no rio Mogi-Guassú, Cachoeira de Emas, Pirassununga, SP.

Nos anos 60, 70 e 80, quando as grandes represas do Brasil estavam sendo construídas, até havia um debate se deveria ou não construir escadas para peixes migratórios, de piracema. Mas os peixes saiam sempre perdendo e nada de escadas, os argumentos contra as escadas de peixe era a altura dos reservatórios, que diziam ser impossível construir uma escada para esse tipo de reservatório ou que seria antieconômico. Até então ninguém no Brasil tinha feito a conta de quanto a pesca pode movimentar em economias locais ou mesmo nacionais.
Com a chegada dos anos 80, as represas continuavam não tendo escadas de peixe, mas as tentativas de reprodução de espécies nativas começavam a caminhar, e no final dessa década peixes como o pacu e o tambaqui eram as grandes promessas da piscicultura, lembro que os professores de piscicultura da UNESP de Jaboticabal não apostavam nos lambaris e nem nos peixes de couro, e estudavam uma técnica de reprodução dos pacus e tambaquis em cativeiro, eram peixes onívoros, com grande rendimento de carne e sem aquela cabeça óssea grande que tem os peixes de couro. Um dos grandes empreendimentos da época foi o projeto pacu, localizada no estado do MS, uma piscicultura particular, que começou a produzir alevinos de pacu e tambaqui. Segundo o empresário Jaime Brum, na época um alevino de pacu valia o mesmo que uma garrafa cheia de 2 litros de coca cola, hoje pelo valor da mesma garrafa se pode comprar de 15 a 20 alevinos de pacu.
Nos anos 90 a técnica de reprodução e criação de pacus e outros peixes “redondos” estava praticamente dominada e se começou a desenvolver técnicas de reprodução de outras espécies como piauçu, pintado, piraputanga, matrinxã e dourado. O mais interessante disso tudo é que ao contrario do que aconteceu com o pacu e o tambaqui, quase todo o desenvolvimento de tecnologia para a produção de alevinos em escala comercial de Brycon (piraputangas e matrinxãs) do dourado, do pintado e do cachara ocorreu dentro do setor privado. Nessa época ja haviam varias piscicultura que engordavam peixes como pacu, tambacu e piauçu tanto para os mercados de peixe locais como para os pesqueiros. E assim saltamos de uma produção de 6 mil toneladas de peixes nativos em 1995, para 58 mil toneladas em 2005. Hoje são mais de 38 espécies de peixes nativos do Brasil produzidos em cativeiro.

Entram em cena os pesqueiros.

A maioria dos pesqueiros no Brasil e principalmente em São Paulo, surgiram na década de 80, com o pretexto de abrir um lago no seu sitio para tirar um lazer de final de semana, começando assim a história dos pesque-pagues. Todos se divertiam com Tilápias, Traíras, Carás e Lambaris e poucos lagos tinham exemplares de Pacus. Depois, pessoas estranhas queriam pagar para pescar, começando assim a idéia de expandir os lagos, e de lazer a negócio foi um pulo, onde surgiram os primeiros pesque e pagues do Brasil. Era hora de aumentar os tanques para atender a demanda. Aos poucos, grandes e profundos lagos foram surgindo, e com eles vinha a esperança de unir lazer e negócio.Os primeiros peixes a chegarem nos pesqueiros foram as Tilápias, Pacus, Bagres Clarias, Carpa Comum, Espelho, Cabeçuda Capim, Cat fish e Piauçu.
No início, o sistema mais adotado nos pesqueiros era o pesque e pague, onde o pescador pagava pelo quilo do peixe pescado, e o sistema pague e pesque, onde o pescador pagava uma taxa e o que pescava levava pra casa. Este segundo sistema virou uma febre entre os pescadores, uma verdadeira invasão aos pesqueiros, pois na época com vinte a vinte e cinco reais você poderia voltar pra casa com trinta a quarenta kg de peixe.
Um dos pioneiros no Brasil foi o Pesqueiro Nene Oliani em Socorro-SP. Vários surgiram um pouco depois e na década de 90 realmente foi que o “bicho pegou”, Pesqueiro dos Amigos em 1994, Califórnia em 1995, o Pesqueiro Pedra Branca (o primeiro do grande Abc), como não falar do Pesqueiro Irmãos Hara também de 95, o berço das grandes Cabeçudas, Pesqueiro Alto da Serra, onde impressionava a chegada de pescadores as 23 horas para pescar no outro dia as 6 da manhã. Também o Pesqueiro Betini, Pesqueiro da Keiko, que até hoje adota o mesmo sistema. Um dos pesqueiros também que reunia muitos fanáticos, principalmente atrás das gigantes Carpas Cabeçudas e também das novidades (Pintados, Tambacus e Cat Fishs).
Com o aumento dos pesqueiros no Brasil, a demanda das pisciculturas também crescia no mesmo ritmo, e novas espécies começavam a surgir, onde percorrendo poucos quilômetros já poderíamos fisgar espécies da bacia do prata, tal como: Pintado, Cachara, Piraputanga, Pacu, Jurupensim, Dourado e Piauçu.
Depois teve a chegada do hibrido Tambacu, que se tornaria uma sensação na pesca, os anos foram passando e muitos pesqueiros começaram a adotar o sistema de pesque e pague, inúmeros pescadores começaram a se afastar, pois no final a conta ficava muito alta, já não podiam trazer para casa uma enormidade de kilo de peixes.

No final dos anos 90, aliado a mudança de sistema e a queda de movimento, muitos pesqueiros não aguentaram e fecharam suas portas, enquanto outros ainda sufocados sobreviveram, nesta mesma época, alguns programas de televisão do segmento da pesca esportiva surgiram e arrastavam muitos fãs para a telinha.
Novos investimentos nas pisciculturas, novos híbridos surgiriam, como: Pincachara, Cachapira. Outros gigantes também vieram, como a Pirarara, o peixe mais colorido da bacia amazônica, Pirarucus e ate Jaús.Outros também foram aparecendo em menor escala: Jundiá, Tucunaré, a esportiva Piracanjuba, Corimba, Black Bass etc.
Uma curiosidade é o hibrido Pincachara, originária do cruzamento entre o Pintado com a Cachara. Como o crescimento de ambos era muito lento com alimentação a base de ração, após realização de estudos, descobriram que cruzando as espécies, o peixe se alimentaria melhor, crescendo mais e cobrindo a demanda de peixarias, restaurantes e pesqueiros.
Outro peixe que nunca poderíamos imaginar também apareceu, o Pirarucu.

Novamente os pesqueiros começam a receber batalhões de pescadores, alguns já iniciam reformas, outros já estruturados aumentam seu lagos, tudo que envolve o segmento cresce, lojas de pesca, novos produtos, e também muitos que haviam sumido ressurgem numa nova esperança.A pesca esportiva nos pesqueiros vem como uma nova atitude. Famílias inteiras também aparecem, pois aliando pesca e lazer os pesqueiros descobriram também um outro público.

Os programas de televisão também iniciam uma série de artigos sobre pesqueiros, sites também ajudam a alavancar a modalidade, dos principiantes aos mais experientes sempre clicam para saber as novidades. Com o crescimento da internet no Brasil e uma vasta opção de informação, agora começa a concorrência, e quem só ganha com isso são os pescadores. Verdadeiros monstros são fisgados, peixes gigantes fazem a alegria de todos, excelentes hotéis-fazendas são construídos e a pescaria ficou muito melhor.

Existem problemas?

Pintado da amazônia, outro híbrido disseminado em vários pesqueiros.

Existem, os pesqueiros criaram vários híbridos de espécies nativas e ao povoarem os lagos com espécies de bacias hidrográficas diferentes da região aonde se encontram, existe o risco sempre presente de introduzirem essas espécies ou híbridos na natureza, isso pode se dar ao romperam as garagens e lagos dos pesqueiros ou mesmo lagos mal planejados que permitem a fuga dos peixes para os rios locais. Também existe o perigo de introdução de doenças de peixes exóticos a fauna brasileira ou a determinada região do Brasil aonde a mesma não ocorre. Apesar desses riscos todos a fiscalização sobre os pesqueiros é bem menor que a dos criatórios de animais silvestres, é quase como se peixes não fossem animais, e embora muitos pesqueiros hoje façam o sistema pesque e solte, em todos o pescador tem a opção de levar algum peixe pra casa.

Dourado pescado no rio Ribeira de Iguape, Sp, de onde não é nativo.
Pacú, pescado no Rio Júquia, SP, de onde não é nativo.

No caso de haver um sistema de caça a animais silvestres provenientes de criatórios dificilmente um caçador gostaria de tentar caçar um animal que estivesse restrito a um cercado ou lugar que ele não tivesse como se proteger ou fugir. Se houvesse a opção de poder soltar animais silvestres em áreas preservadas particulares, isso daria uma demanda maior a animais da nossa fauna, e poderia causar um aumento de areas protegidas ou de áreas com regeneração da vegetação natural, como aconteceu em outros países, e acabaria beneficiando as espécies animais que não são de interesse cinegético, e também as plantas nativas. Se isso fosse possível, a soltura de animais silvestres em áreas para serem eventualmente caçados, essas áreas de caça tem uma vantagem sobre os pesqueiros, no Brasil a variedade de espécies de interesse cinegético é muito menor que a de peixes, e na sua maioria são animais adaptados a vários tipos de ecossistemas e regiões do Brasil, assim caso eles escapassem das areas do criatórios ou da área de caça, eles não destruiriam o que resta de equilíbrio no ecossistema local. As espécies que tradicionalmente são as mais desejáveis para caça, no caso de mamíferos; são a paca, campeã de aprovação do sabor da carne, tida por muitos como a melhor carne de caça que existe, seguida dos porcos do mato, cateto e queixada, e ai depois varia um pouco, se fossem falar de espécies de caça de troféu no Brasil são poucas e a maioria esta na lista de ameaçadas, como cervo do banhado, veado campeiro, veado galheiro da amazônia e os veados menores, mateiro, catingueiro e outros do gênero Mazama. Os grandes felinos como a onça pintada e a parda seriam animais que atrairiam caçadores de fora do pais para cá, mas falar disso hoje em dia é algo muito distante da nossa realidade.

Assim como os pesqueiros ajudaram ao desenvolvimento das técnicas de reprodução e criação em cativeiros de espécies que antes eram tidas como impossíveis ou até inviáveis para criação em cativeiro, áreas de caça, fazendas de caça ou criatório cinegético, seja o nome que for, iria ajudar muito a disseminar espécies nativas como queixadas e catetos que desapareceram de varias partes do Brasil, regiões para essas atividades não precisam ter um alto valor turístico, e trariam emprego e investimento para regiões que não são aptas para agricultura convencional e nem para a criação animal, na minha opinião, especialmente no nordeste do Brasil, ou areas degradadas do sudeste e sul. Esse tipo de atividade pode inclusive ajudar os grandes predadores a evitar áreas de criação de gado e se fixar nessas áreas de caça, aonde iriam se alimentar de animais silvestres.
Fazendas de caça já existem em inúmeros países, e aonde foram instaladas fizeram pela fauna o que os pesqueiros fizeram de positivo pelas espécies de peixes nativas, hoje em dia elas não só aumentaram a população total de animais de caça, como também aumentaram as áreas naturais particulares, o que acaba afetando espécies que nem serão alvos de caça, que também tem aumento de suas populações, também viabiliza a criação dos tais corredores ecológicos que nunca saíram do papel, tudo isso melhora a biodiversidade e é o uso sustentável de um recurso natural, a fauna, termos muito em moda hoje em dia, muito usados no discurso ambientalista de hoje, raramente posto em ação.

Luis Almeida

Fontes:

http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/pt/verbetes/ihenrod.htm

http://www.panoramadaaquicultura.com.br/paginas/Revistas/102/PeixesNativos.asp

http://loucosporpesca.com.br/?p=7256

Luis Almeida

Formado em Zootecnia, na UNESP -Jaboticabal, fez cursos de animais silvestres na ESALQ, morou Africa do Sul e Zambia nos anos 90, trabalhou como aprendiz de caçador profissional nesses países, em 2004 se mudou para a Grécia e desde 2013 fica indo e vindo entre Brasil e Grécia, sempre caçando aonde tem oportunidade e pesquisando novos destinos de caça.

4 comentários em “O que os criatórios de animais silvestres tem de diferente dos pesqueiros?

  • 11 de julho de 2017 a 13:41
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    Show de bola o comentário amigo…eu só discordo da parte de caça de troféus de onças por exemplo, acho muita vaidade matar uma obra prima dessas se não vai se aproveitar a carne etc… mas de resto perfeito, parabéns.

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    • 11 de julho de 2017 a 14:06
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      Oi Guilherme, obrigado pelos elogios, só um aparte, caça de troféu no Brasil tem uma fama ruim, isso é porque se acha que nunca se aproveita a carne, e isso não é verdade, especialmente em países da Africa, nenhuma carne vai para o lixo ali, até as carnes de predadores são consumidas, só que para os nativos africanos eles vêem aquela carne como um alimento com poderes especiais e não como mistura. Nos países da Ásia e América do Norte os predadores também são usados como alimento, até o coiote tem sido aproveitado, embora seja abatido como praga e não como troféu na grande maioria dos casos. Quanto a vaidade, quem é que nunca pegou um peixe grande e tirou uma foto? Pra mais informações sobre caça de predadores acesse esse site em inglês, é muito bom, não fala apenas de caça mas também de culinária e vários assuntos relacionados a caça e conservação. http://www.themeateater.com/
      Abraço!

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  • 11 de julho de 2017 a 15:27
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    Excelente o artigo. Parabéns !

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  • 11 de julho de 2017 a 16:46
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    Excelente material!
    No meu humilde raciocínio, o que impede o nosso país de levar a sério esse tipo de atividade, são as demais atividades “ilícitas” envolvidas, como o desmatamento, barragens sem autorização, garimpos mantidos por grandes empresários e políticos.
    Também impede tal projeto é a ocupação como a que vemos no momento, reformas monstruosa e um presidente que mostra hoje, uma realidade que vivemos desde sempre, só que velada e que por algum ser divino veio a tona.

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