A melhor aventura que o dinheiro pode comprar.

Nem adianta querer fazer suspense, essa aventura seria uma viagem de caça, a palavra safari vem a mente quando falamos numa viagem de caça, essa palavra que em Swahili significava viagem ou jornada, foi muito associada as expedições de caça no continente africano, e é tão associada a aventura que esta sendo utilizada pra qualquer passeio de carro em estrada de terra, então vou evitar usar muito aqui, pra não desgastar ainda mais essa palavra tão bacana, até pensei em usar uma palavra indígena brasileira, mas tentei encontrar no “oráculo” do google, mas não achei, quem souber de uma palavra indígena brasileira similar ao significado de safari, por favor me informe.
E porque viajar para caçar? Bom, porque por muito tempo não podíamos caçar nada aqui no Brasil, e agora podemos caçar javali, embora o nome certo seria controle, e ainda assim o IBAMA e outros órgãos governamentais e ONGs independentes ficam criando empecilhos em nome dos direitos animais, como se os animais prejudicados por javalis e outras espécies exóticas não tivessem direitos, ou se eles só tivessem reclamado dos seres humanos caçando javalis. Hipocrisias a parte, nem vou me alongar nesse assunto porque isso daria um livro, mas por tudo isso é que uma viagem de caça faz sentido pra quem mora no Brasil.

Uma viagem de caça, assim como a maioria das viagens, é o tipo de gasto que nunca fica velho, um carro pede valor, mas uma viagem nunca, e uma viagem e caça então é inesquecível, e mais importante, única. Na maioria das viagens, existem surpresas boas ou ruins, mas em geral você sabe mais ou menos o que pode encontrar ou acontecer, agora numa viagem de caça, ai é bem diferente. Mesmo que vc sempre vá para a mesma área caçar, nada sera igual, mesmo que vc sempre fique na mesma espera, aguardando um javali, ou um outro bicho qualquer, vc sempre verá cosas diferentes, podem existir surpresas boas e ruins também, mas cada dia no mato é um dia que se aprende alguma coisa.

E aprender, ver coisas novas quando se caça, é sempre uma experiência gratificante, por mais que você leia, nada vai superar ver acontecer na sua frente. Antes de ir trabalhar com safaris na Africa nos anos 90, eu li tudo o que podia sobre caça na Africa, historias antigas e mais recentes, livros sobre as espécies de caça na Africa, nessa época morava em Pretória, Africa do Sul, e uma coisa que ajudava muito é que em qualquer livraria ou biblioteca naquele país vc poderia achar guias de plantas africanas, de flores, de árvores, de borboletas, de repteis, de aves, o que vc imaginasse, pássaros canoros ou orquídeas, iria existir um livro que iria te ajudar a saber algo sobre o assunto. E claro livros sobre os mamíferos africanos e sobre os primeiros exploradores que desbravaram aquele continente exigiam aos montes, eu por falar inglês li mais relatos dos exploradores ingleses, mas houveram também exploradores de outros países europeus, alemães, franceses e vários outros. Não cheguei a ler nada de exploradores Portugueses, na Africa do Sul era raro achar livros em português, o que é um pouco esquisito porque Moçambique faz fronteira com a Africa do Sul, e até os anos 70 Moçambique era um destino turístico muito procurado entre os sul africanos, que me falaram apelidaram Lourenço Marques, hoje Maputo, a paris da Africa, por causa da vida noturna. Os sul africanos também administraram a Namibia desde a segunda guerra mundial até sua independência nos anos 80, o exercito sul africano até enfrentou o exercito angolano e soldados cubanos na fronteira da Namibia com Angola. Essa abundância de livros e relatos sobre a natureza africana sempre me deixava pensando como seria interessante se os nossos bandeirantes e primeiros exploradores tivessem deixado grandes obras descritivas de suas viagens, personagens como Raposo Tavares, que andou de São Paulo a Amazonia, imaginem se ele tivesse desenhado o que viu, os bichos, povos e lugares, quem sabe seriamos mais zelosos dos nossos lugares selvagens e do valor da caça.

Voltando as viagens de caça, alem da proibição no Brasil, qual outra razão justificaria realizar um gasto dessa ordem? Afinal uma caçada fora do país, mesmo que barata, vai ser mais cara que um pacote pra Disneylândia, e se quiser trazer os troféus ou pele dos bichos vai custar um pouco mais ainda. Ai alguém pode falar, porque não ir só num safari fotográfico? Eu compararia a diferença entre ir num safari fotográfico e ir num safari de caça como chupar uma bala com papel ou chupar uma bala sem papel, parece um pouco cruel, arrogante, mas a verdade é essa, num safari fotográfico vc fica o dia todo sentado no jipe, alguns jipes tem ar condicionado, o que faz da experiência um pouco mais “aventureira” que assistir um documentário sobre fauna numa televisão HD, só que na televisão você vai ter uma visão melhor dos bichos e o seu sofá vai ser mais confortável que o assento do jipe.

Turistas observando a migração anual de gnus e zebras no rio Mara, Masai Mara National Reserve, Kenya

Quando você estiver caçando, e embora no caso africano o jipe é muito usado para achar os rastros e carregar o animal de volta pro acampamento ou sede da fazenda, na hora que você achar os rastros dos animais que você procura, vc desmonta do jipe e a caçada começa, a partir daquele momento, a arma é carregada e a coisa fica séria. As áreas de caça, no mundo todo, são areas de acesso restrito, não há milhares de turistas com jipes pra lá e pra cá procurando o “bambi”, ou oferecendo uma gorjeta pro guia chegar mais perto do leão, e mito menos tentando tirar uma selfie com um elefante. Numa viagem de caça você estará tendo acesso a áreas exclusivas, aonde na duração da sua caçada, o seu grupo, será o único permitido ali, voce estará tendo acesso a lugares raramente visitados por outros seres humanos, em alguns casos voce ira chegar a lugares aonde animais não vêem seres humanos em anos, e em alguns nunca viram. Algumas áreas na America do Norte, extremo leste da Rússia, norte da Mongolia, Groelândia e vários países nos Himalaias são tão remotos que ou voce só chega de avião ou os jipes usam bússolas para chegar ao acampamento porque não há estradas. Em alguns desses lugares vc só chega a pé ou, se tiver sorte, a cavalo.

Expedição de caça a cavalo nas montanhas rochosas, áreas aonde não se vai de jipe

Nesses lugares mais remotos, apenas ir e voltar é uma aventura, conseguir achar o bicho que voce foi caçar é quase como ganhar na loteria! Numa caçada voce vai experimentar todas a agruras que a natureza jogar pra cima de voce, seja calor, frio, neve, vento, espinhos, insetos, e ao mesmo tempo voce irá ver paisagens que pouquíssimas pessoas já viram, mesmo as experiências assustadoras como um leão rugindo a noite inteira perto da sua barraca, um búfalo disparando na sua direção após você te-lo atingido, são situações que você jamais esquecerá, e terá orgulho de ter vivido aquilo, se lembrará pra sempre da adrenalina que experimentou, lembro quando ouvi um leão grunhindo a primeira vez, eu estava no fim da fila, meu chefe deu de cara com uns 3 leões, 1 macho e duas fêmeas que dormiam na beira do rio, eles acordaram assustados e fugiram para o meio do mato, mas ao fazerem isso eles grunhiram, e eu sem ver ou saber que era, instantaneamente parei aonde eu estava, meu cérebro mandou um aviso pra parar imediatamente rsrsrs, como um alarme ancestral, do tempo que os seres humanos tinham que lidar com esse tipo de problema diariamente, e quem não obedecia a esse alarme provavelmente não voltava pra casa naquele dia rsrsrs. Essas experiências acontecem diariamente quando se caça, as vezes com animais perigosos e majestosos como leões, outras com animais menos chamativos. Uma vez na Bulgaria, na ultima vez que cacei por lá, estava caçando de espera, tinha ido por poucos dias, estava atrás de um fallow deer, em Portugal e Espanha chamam de gamo, na Argentina e alguns zoológicos do Brasil de cervo dama. Era a ultima tarde de caça, eu tinha caçado de aproximação pr 2 manhãs, na primeira manhã o guia me indicou um macho de bom tamanho, eu fiquei na duvida, ele não falava inglês, eu não falo búlgaro, pra variar tinha feito um erro que já tinha feito outras vezes, fui caçar sem testar a arma que iria usar, estava usando um Blaser R8 em .308 winchester, um cano curto, tipo 16 polegadas, uma luneta Zeiss, que como toda Zeiss é excelente, agora não lembro os aumentos. Foram 2 dias caçando, de manhã procurando e de tarde esperando, nessa ultima tarde, deixamos a caminhonete longe, andamos com cuidado por uma mata de pinheiros, era bem aberta mas com muitas folhas secas no chão, demoramos um bocado pra atravessar um quilômetros de floresta, chegando no abrigo aonde iriamos esperar, subimos com cuidado, era um abrigo de madeira então ele pode ranger caso a gente se mexa ali dentro. Após todos esses cuidados, sentamos pra esperar, deixamos as janelas do abrigo abertas pra posicionar rapidamente o rifle, tudo calmo e pronto pra chegada dos cervos, quando de repente escuto um grito, que parecia um de um pica pau do campo, um xanxã, quase derrubei a garrafa de água rsrsrs ai olho pela janela e vejo o autor do grito, um esquilo. O “abençoado” esquilo ficou ali ainda um tempo, tempo suficiente pra que eu tentasse perguntar ao búlgaro se era permitido abater o esquilo rsrsrs mas ele fez gestos que entendi que ele acabaria parando, pra minha sorte ele parou.

Aqui o resultado da espera, o esquilo felizmente parou de gritar e os cervos apareceram, esse ai foi o meu primeiro gamo.

Aqui no Brasil já me contaram que as gralhas cã cã também avisam aos outros bichos da presença de caçadores, humanos ou não, voltando ao assunto do texto, pequenas coisas como essa é que fazem desse tipo de viagem, a viagem de caça, a verdadeira aventura, são experiências que só tem quem caça. Quem caça vai andar quilômetros em territórios selvagens, quem caça elefantes, em geral, anda uns 200 quilômetros a pé até abater seu elefante, quem caça cabras e carneiros de montanha vai subir montanhas durante toda a sua estadia no local de caça, que em alguns casos como nos carneiros argali, pode ser uma caçada de 21 dias, e dificilmente vc conseguirá se aproximar a menos de 200 metros daquele animal, que vive em montanhas altas, íngremes e praticamente sem vegetação, arvores nem pensar.

Por tudo isso que contei é que eu considero as caçadas, como as ultimas aventuras de verdade, quem embarca em uma caçada dentro ou fora do Brasil, mesmo que não sejam caçadas radicais como caçar ursos polares com esquimós, búfalos com nativos de Papua, elefantes na Tanzânia, uma caçada sempre te dará uma visão diferente do lugar que você está visitando, uma visão mais verdadeira, porque quem caça, mesmo profissionalmente, tem um grande amor e conhecimento da natureza locale da caça, mesmo em lugares em que a caça é uma atividade regular e normal, ainda dá mais trabalho, oferece mais perigo e menos renda que muitas profissões tradicionais, existe gente que fica rico com caça, existe, mas pelo tanto de esforço e envolvimento se o cara fosse operador da bolsa de valores ele ganharia mais dinheiro. Por essas e outras que as caçadas internacionais valem a pena, mesmo perto como Uruguai, Argentina e Paraguai. Seria muito bom se pudéssemos caçar aqui no Brasil, que oferece paisagens variadissimas como a caatinga, o cerrado, o pantanal, a mata de pinhais, isso pra citar exemplos gerais, como isso não é possível, resta aos caçadores brasileiros sair mundo afora conhecendo outros lugares selvagens.

A quem puder fazer uma viagem dessas, meu conselho seria faça, você não irá arrepender, existem cuidados a serem tomados, pra evitar maus profissionais, mas é possível, procure outros caçadores que ja tiverem experimentado esse tipo de caçada, quem não caiu na mão de um mau profissional tera com certeza boas experiências a te contar. Em outra ocasião entrarei em detalhes sobre caçadas em outros países, espero que tenha despertado a curiosidade dos leitores do aquitemjavali.com.br sobre mais esse tipo de caçada.

Luis Almeida

Luis Almeida

Formado em Zootecnia, na UNESP -Jaboticabal, fez cursos de animais silvestres na ESALQ, morou Africa do Sul e Zambia nos anos 90, trabalhou como aprendiz de caçador profissional nesses países, em 2004 se mudou para a Grécia e desde 2013 fica indo e vindo entre Brasil e Grécia, sempre caçando aonde tem oportunidade e pesquisando novos destinos de caça.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *