O vegano que virou caçador

Entrevista de Tovar Cerulli, publicada originalmente em The Atlantic (Feb. 15, 2012).

Observando caçadores indo para as matas a cada outono, eu costumava chacoalhar a minha cabeça. Como vegano que detestava violência e sofrimento, eu ficava imaginando o que tomava conta dessa pessoas. Que eles comiam carne já era ruim o suficiente, que eles ainda perdiam tempo e dinheiro perseguindo a chance de trazer a morte a outras criaturas era incompreensível para mim.

De onde eu estava, no nossa horta orgânica, eu via a caça com uma relíquia barbárica do passado pré-agricultura humano, a antítese dos nossos esforços gentis de conseguir nosso sustento do solo. Eu não conseguiria de jeito algum ter visualizado eu mesmo uma década mais tarde, registrando as trilhas de veados durante todo o verão na esperança de levar carne de caça pra casa no Novembro seguinte.
Como muitos veganos e vegetarianos, eu me abstive de alimentos de origem animal porque eu me importava com as consequências da minha alimentação, para o planeta que eu e outras criaturas habitamos. Eu procurava um tipo de cidadania alimentar, um jeito respeitoso e holístico de viver como membro de um mundo maior que o mundo humano. Minha mudança de direção rumo a caça foi uma extensão inesperada da mesma procura.
Na época em que eu e minha noiva voltamos a comer ovos e laticínios devido a preocupações com nossa saúde, eu comecei a me dar conta que tudo que eu comia, afetava os animais. Eu sabia que ao limpar a vegetação natural para plantar meus vegetais, eu exterminava o habitat da fauna local, que colheitadeiras de grãos matavam aves e mamíferos e que fazendeiros tem de matar para proteger qualquer de suas plantações em toda América do Norte. Mesmo as nossas verduras e morangos orgânicos, chegavam a nós como cortesia das florestas destruídas, de marmotas fumigadas em seus buracos e de veados abatidos por rifles. Se os fazendeiros do século 19 tivessem realizado sua vontade, as populações de veados no nordeste dos EUA teriam permanecido em níveis próximos a extinção, a qual tinham sido levados pela caça sem regulamentação e o corte das florestas para abrir novas terras a agricultura.

Os veados whitetail são tão numerosos hoje em dia nos EUA, que até nos subúrbios existem em abundância, resultado de anos de manejo de caça

A nossa volta a comer galinhas locais, e peixes selvagens foi ainda mais inquietante. Essas criaturas não tinha morrido como efeito colateral da agricultura. Elas tinham sido mortas especificamente para que eu pudesse comê-las.

Então eu comecei a caçar, eu precisava assumir a responsabilidade pelo menos por algumas das mortes que me alimentavam, para confrontar essa dificuldade moral e emocional, eu precisava olhar diretamente a uma criatura viva, eu não poderia deixar toda a matança ser feita por outra pessoa.

Como nos meus anos de vegano, eu procurava um jeito respeitoso e holístico de viver como membro de um mundo maior que o mundo humano. Ecologicamente, a carne de caça das matas locais faz muito mais sentido que qualquer outra trazida de outra região ou outro pais. Eticamente, um animal verdadeiramente selvagem faz muito mais sentido que qualquer criatura criado em confinamento.

A caça é ainda uma realidade muito dura para muitos americanos aceitarem. Em parte isso é uma questão histórica, que vem dos puritanos americanos que viam a caça como um sinal de degeneração tanto nos nobres europeus como nos nativos americanos, de caçadores legendários como Daniel Boon e Theodore Roosevelt, até o estereotipo moderno do caipira (redneck) inconsequente, os americanos modernos herdaram um legado muito conflituoso.
Em parte, é uma questão de ocorrências como caçadores efetuando tiros perigosos ao perceberem movimentos na vegetação, ocasionalmente resultando em tragédias, outros atiram sem a devida preocupação com o sofrimento inflingido ao animal, ou o risco de uma morte lenta e dolorosa.
Nós somos, e devemos ser, incomodados por esse tipo de comportamento, mas também devemos ver isso pelo que realmente é, o lado escuro não apenas da caça, mas da nossa cultura como um todo.
Como escritor e caçador Ted Kerasote, apontou a muitos anos atras, que imprudência e desrespeito dificilmente são características apenas de caçadores descuidados. Como sociedade, nós nos ocupamos em todos os tipos de comportamentos prejudiciais, desde dirigir embriagados, como plantações industriais, até o desenvolvimento voraz e praticas agrícolas que causam erosão do solo, envenenamento de aves as dezenas de milhões de indivíduos. A má conduta de caçador, atribuídas a ações intencionais de indivíduos membros de uma minoria, serve como um pará-raios para desaprovação. Em grande parte a nossa dificuldade de aceitar a caça vem do fato que a matança de animais nos perturba. A maioria dos devoradores de hamburguer americanos não querem saber o que acontece nos matadouros e frigoríficos, a maioria dos vegetarianos consumidores de yogurte, não querem saber que as fazendas leiteiras dependem do constante abate dos jovens machos, que viram carne de vitela. E como um vegano comedor de saladas eu não queria saber sobre os impactos da agricultura ao meio ambiente.

Diferente de ir ao mercado, a idéia de caçar nos traz face a face com a morte de um animal. Embora caçadores podem passar dias, semanas e até anos sem matar um animals ou passaro, todos sabemos que eles tem a intenção de matar eventualmente.
Quinze anos atrás, eu achava essa participação voluntaria impossível de ser compreendida. Na minha imaginação, eu pintava os caçadores com pinceladas escuras, na melhor das hipóteses, eu pensava que eles deveria ser insensíveis e ignorantes. Agora, após quase uma década como caçador, eu acho que a caça merece uma audiência justa.
Outros americanos estão chegando a mesma conclusão, a medida que os movimentos de consumidores de alimentos locais cresce, vegetarianos e onívoros estão procurando caminhos para uma dieta responsável. Perturbados pelo impacto do sistema industrial de alimentos em humanos, outros animais e no mundo natural, muitos de nós estão apoiando fazendeiros locais, muitos estão plantando suas hortas ou criando galinhas, e alguns estão usando rifles, cartucheiras e arcos.

Embora a caça nunca irá prover uma parte muito grande do estoque nacional de comida, a caça de veados fornece anualmente nos EUA uns 150 milhões de quilos de carne de caça, isso da menos de 1 quilo de caça para cada americano por ano, a caça pode, para algumas famílias, fornecer parte significante da carne consumida anualmente. Por quatro dos últimos cinco outonos, eu explorei as matas com um rifle, esperei pacientemente, matei rapidamente e trouxe pra casa de 35 a 50 quilos de carne saudável, local, sustentável e criado á campo.

Nos últimos anos, artigos sobre caçar para comer tem aparecido em jornais e revistas por todo o pais, de Nova Iorque a Virginia, do Arizona ao Wisconsin, pessoas estão se inscrevendo em aulas que eu chamaria de “caça para principiantes adultos”, outros estão aprendendo sozinhos ou seguindo conselhos de caçadores experientes que eles conhecem.
Mesmo que esse aumento do interesse na caça seja uma moda passageira, isso já começou o importante trabalho de acabar com os estereótipos. A medida que mais americanos descobrem que caçadores existem em seus círculos familiares e de amizade, caçadores ficam mais difíceis de serem definidos. Estereótipos destruídos oferecem a nós a chance de pensar e ver com melhora clareza. A medida que continuamos a reavaliar o nosso relacionamento com o alimento e a natureza, caça, como a agricultura, deve ser examinada com uma visão de discernimento. Uma abordagem arrogante pode perpetuar o pior do que somos, seres humanos gananciosos e extremamente descuidados, uma abordagem com humildade pode encorajar o melhor de nós, humanos mais sábios e inteligentes.

Tovar Cerulli é o autor de The Mindful Carnivore: A Vegetarian’s Hunt for Sustenance. Ele também é estudante de doutorado, na época dessa entrevista, na University of Massachusetts, aonde sua pesquisa é direcionada a alimentos, caça e os relacionamentos humanos com a natureza.

Luis Almeida

Formado em Zootecnia, na UNESP -Jaboticabal, fez cursos de animais silvestres na ESALQ, morou Africa do Sul e Zambia nos anos 90, trabalhou como aprendiz de caçador profissional nesses países, em 2004 se mudou para a Grécia e desde 2013 fica indo e vindo entre Brasil e Grécia, sempre caçando aonde tem oportunidade e pesquisando novos destinos de caça.

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