O ultimo dos big 5, o búfalo.

O ultimo dos big 5, o búfalo.

Deixei pra falar do búfalo por ultimo, porque dos big 5, é o único que eu cacei, talvez o mais acessível pra quem não é milionário, e com certeza, de todos os bichos que eu cacei, foi a caçada mais inesquecível. Eu tive muita sorte porque eu trabalhava como aprendiz de guia de caça na África nos anos 90, e o lugar aonde eu trabalhava, na Zâmbia, era destino de caçadores de três dos big five na época, leões, leopardos e búfalos. Na época não era mais permitida a caça de elefantes, mas hoje em dia foi reaberta.
A primeira concessão que eu trabalhei era no oeste da Zâmbia, e depois fui para outra concessão no leste da Zâmbia, no vale do rio Lwangwa, um lugar meio montanhoso, com vegetação meio fechada, bem cheia de espinhos, e além de caçar um búfalo para mim, eu participei de varias caçadas de búfalo com vários caçadores americanos, e não tem uma dessas que eu possa falar que tenha sido ruim, mesmo quando a gente não pegava o búfalo, a gente não se sentia frustrado, cansado sim, porque a gente sempre andava muito, mas também nos momentos de aproximação dos búfalos existia a tensão, que na maioria das outras caçadas não tinha, afinal todo búfalo é um bicho potencialmente perigoso, e quando você se aproxima de um rebanho deles, é um conjunto de varias animais perigosos, principalmente as fêmeas que por causa de filhotes sempre podem atacar. Essa tensão você só sente caçando animais que pertencem ao big five.

Após minha temporada na Africa, eu acabei descrevendo minha experiência numa revista de armas, que infelizmente não existe mais, chamada Hunter.

O búfalo africano é um animal que habitava grande parte das savanas da África e em algumas florestas, como tem uma área de distribuição muito grande, existem muitas diferenças locais entre essas populações de búfalos, algumas são tão diferentes entre si que parecem espécies diferentes até, mas hoje em dia os cientistas acreditam que todos pertencem à mesma espécie, com varias subespécies ao longo da África. Os maiores búfalos africanos que existem não chegam a ser tão pesados como pode ser um búfalo domestico, que pertence a outra espécie, os búfalos domésticos descendem dos búfalos asiáticos; em geral os búfalos de savana pesam uns 700 kg, embora haja quem diga que cheguem a uma tonelada, os búfalos de floresta já são bem menores, 250 a 450 kg, e quem já caçou diz que são muito mais agressivos que os de savana. Todos os búfalos são animais extremante fortes, e quando feridos ou provocados podem ser letais para o ser humano e um monte de outros predadores, afinal esses animais evoluíram tendo de crescer entre leões, hienas, leopardos, crocodilos e seres humanos, e além dos predadores existem elefantes e rinocerontes que também podem atacar búfalos.

Foto que mostra as 3 subespécies reconhecidas de búfalos, e sua distribuição geográfica, como a distribuição é ininterrupta, nas areas em que subespécies se encontram vc encontra animais “cruzados”, que apresentam características de ambas subespécies, e mesmo esse da foto chamado de “nanus” não está tão característico da sua subspécie.
Foto que mostra os órgãos vitais do búfalo.

Pelo seu tamanho, ossatura pesada e periculosidade, os calibres indicados pra caçar o búfalo africano são todos grandes, até pela legislação, os calibres para búfalos devem ser a partir de 9,2 mm ou com energia de 5.300 joules ou 3909 pés libra. Na maior parte dos países africanos o calibre mínimo seria o .375 H&H ou o 9,3x74mm, em alguns poucos eles também incluem o 9,3x62mm, que para muitos é um pouco fraco, é muito usado para javali na Europa, tem o tamanho muito próximo do 30-06, um conhecido de muitos caçadores brasileiros. Já quem caça regularmente búfalos, ou é guia de caça, prefere calibres maiores, pelo menos um .458 Winchester Magnum, que era até os anos 90 na África, o calibre mais acessível, tanto para comprar munição e rifles nesse calibre, de lá pra cá houve um ressurgimento dos caibres pesados da idade de ouro de safaris que veio antes da segunda guerra mundial, basicamente calibres britânicos, como o .416 Rigby, o 404 Jeffery, o 505 Gibbs, e os calibres de rifles duplos, que voltaram a ser oferecidos por vários fabricantes, mas nenhum deles é muito barato, dos calibres de rifles duplos o mais comum seria o .470 Nitro Express, o 450/400, o .577 Nitro Express e vários o outros, como o mais recente .700 Nitro Express.

Aqui 3 machos de búfalo da savana, ou cape buffalo, em inglês. Como se pode ver quanto mais velho, mais sólido parece o capacete do chifre do búfalo, é uma boa indicação de troféu e idade do animal

Belo exemplo de búfalo da floresta, também conhecido em Angola como Pacassa.

Pra muita gente, especialmente aqui no Brasil, acham esses calibres grandes demais, desnecessários, mas o dia que você for caçar búfalo na África você irá ver que os búfalos têm uma capacidade de resistir aos tiros, que é mais impressionante que todas historias de caçador que você já ouviu na vida. Os búfalos tem uma tenacidade, uma força que a menos que o tiro tenha sido muito bem colocado, ele não cai fácil. E isso é o que faz dele um animal tão perigoso de ser caçado. Numa caçada normal, você segue os rastros de búfalo por um tempo, que pode varia de uma há muitas horas, ai você chega perto e começa a aproximação, aonde você tem de estar atento a direção do vento e ao barulho que você pode fazer, e no caso de ser rebanho, você tem de cuidar para que nenhum dos muitos olhos, narizes e ouvidos te descubra, ai você atira, se foi atingido em um lugar mortal, cabeça ou coluna cervical, ele cai ali mesmo, mas caso contrario, a primeira reação, em geral, é o búfalo fugir, a medida que ele corre, ele começa a sentir a dor do ferimento, ai ele diminui a corrida e procura um lugar calmo, e nisso acaba descrevendo um circulo e se aproxima do caçador por trás, caso ele já esteja seguindo o rastro do búfalo ferido. Alguns caçadores falam que o circulo é intencional, ele esta procurando o caçador que o atingiu, eu, na minha opinião, acho que deve ser casual, o animal para pra descansar, e caso o caçador esteja andando atrás dos búfalos feridos, o animal acabe pegando o cheiro do caçador e ai ele decide se ataca ou tenta fugir de novo. Por isso tem muito caçador que depois de atirar num búfalo, prefere esperar, fumar um cigarro e depois de uma eia hora ir atrás do búfalo, acreditando que o mesmo deve estar morto.

Rebanho de búfalo do nilo, brachicerus, mas com alguma mistura com búfalo de floresta, nanus, como se pode ver pelos indivíduos vermelhos no rebanho.

Eu prefiro ir atrás do búfalo imediatamente, ao atirar, se ele corre você corre atrás e se prepara pra quando ele der uma diminuída ou parada e ai você termina de abater, isso economiza tempo de rastreamento, e menos tempo de sofrimento ao animal. Eu aprendi isso seguindo um guarda parques da Zâmbia, ele veio caçar um búfalo para um chefe local e eu fui junto, o cara era rastreador excepcional, achamos um rebanho de búfalos, nos aproximamos, mas ao chegar a uns 60 metros do rebanho um animal levantou a cabeça e deu uma bufada e todos começaram a correr, nesse milissegundo que o bicho bufou e antes dos búfalos correrem o guarda, que eu não lembro mais o nome, conseguiu mirar e atirar num, o rebanho todo começou a correr, e o guarda se mandou atrás o rebanho, e eu empolgado com toda aquela ação fui junto, o barulho de um rebanho de búfalos correndo é algo muito difícil de descrever, a terra inteira treme, é uma confusão de barulhos, mugidos, cascos, grunhidos, e nessa confusão vimos um búfalo se separando do rebanho, seguimos ele parou atrás de uma arvore, e atrás dessa arvore tinha um barranco, de terra escura, que se eu não tivesse visto ele parando ali, acho que eu teria passado batido por ele, e se isso tivesse acontecido eu teria sido mais um caçador vitima de búfalos. A caçada acabou ali mesmo, o Guarda parque deu mais um tiro com seu .458, e eu segui o tiro dele com outro um pouco atrás da paleta dele, que acabou pegando no pulmão, esse búfalo, era um novilho ainda, e ele caiu fácil; ainda assim foram precisos três tiros de 458 WM para deitar ele.

Ainda sobre o búfalo, os rebanhos são guiados pelas fêmeas mais velhas, o rebanho normal gira em torno de 20 a 50 animais, mas algumas vezes vários rebanhos se juntam e formam um rebanho de até mil animais, essas associações as vezes são passageiras, algumas vezes duram bastante tempo, eu lembro do meu tempo na Africa que existia uma concessão de caça que tinha apenas um rebanho de búfalos, mas esse rebanho era de 500 animais, o que fazia desse rebanho fácil de ser seguido pelo rastro, mas por outro lado pra se achar um macho troféu, ou mesmo conseguir um tiro limpo, era muito difícil, sempre havia um animal na frente ou atrás do alvo. Os machos mais desejáveis, na minha opinião, são os que se chamam “dagga boys”, a tradução seria “garotos da lama”, são animais de mais de 7 anos de idade que pararam de seguir o rebanho, e vivem mais ou menos na mesma area o ano todo, geralmente algum pântano, ou várzea de rio. Esses machos fazem pequenos grupos, são muito espertos, experientes, esse búfalo que esta na foto comigo na revista era um desses, era um grupo de 3 machos, ao serem perseguidos, eles corriam um pouco, uns 10 minutos, e paravam e ficavam olhando para onde eles tinham nos avistado, muitos fazem isso, correm um pouco, descansam, e ao perceber os caçadores se aproximando dão mais uma corrida, e podem passar assim o dia inteiro sem você chegar a vê-los, só escuta quando correm. No caso desse que eu peguei, ele e os outros ficaram fazendo isso por mais de uma hora, até que eles entraram numa area mais seca, e apesar de não ter chance de tiro, dava pra ter uma idéia de onde eles estavam. Foi quando meu chefe me deu uma idéia, eles estavam seguindo um pequeno vale de um córrego seco, meu chefe me falou pra sairmos desse vale e nos aproximarmos por detrás de um morrinho, e assim fizemos, quando achamos que estávamos com uma boa vantagem, subimos esse morrinho, e pra minha surpresa, como num quadro, os três búfalos estavam em fila indiana, olhando para trás, tentando nos achar, todos os três em perfil na nossa frente, era só escolher qual seria abatido, como eu nåø fazia questão do maior troféu, meu chefe me indicou o do meio, o menor dos búfalos em termos de troféu, eu rapidamente achei uma arvore de apoio, comecei a mirar e eles perceberam a gente e iam começar a correr, eu mirei então na altura da paleta dele, mas como ele ia correr eu transferi o ponto da mira para frente, achando que se ele corresse eu pegaria na paleta, preparei o BRNO em 375 H&H e disparei, pra minha surpresa, eu acertei exatamente no meio do pescoço dele, ele caiu de lado e não mugiu mais, acertei exatamente na vertebra do pescoço, um tiro que eu jamais iria tentar, mas pronto, o búfalo estava no chão e era isso o que importava.

Com relação ao troféu do búfalo, existem 2 tipos de medida de troféus que são mais conhecidos na Africa, o do Safari Club International, e o do Rowland Ward. Esse sistema do Rowland Ward é o mais antigo, Rowland Ward era um taxidermista inglês, que começou a editar um livro de troféus em 1882, e nesse livro eram escritos os tamanhos de animais caçados, quem caçou e aonde, e ordenados por tamanho, se eu fosse resumir o sistema Rowland Ward, eu diria que é um sistema fácil de ser usado e que considerava em geral o chifre maior, então um bicho com um chifre só poderia ser o número 1, mas um animal para entrar na lista do livro teria de passar de um tamanho mínimo, que para muitos animais hoje em dia é difícil. Quando se fala de troféu de búfalo, geralmente a medida é referente ao sistema Rowland Ward, como os chifres do búfalo se juntam no topo da cabeça, fazendo um capacete fundido, o sistema de medida do búfalo é a sua “largura”, para ficar mais fácil é só olhar a figura abaixo. O sistema de medida do SCI (Safari Club International) mede cada chifre, seguindo as curvaturas, assim como a circunferência das bases do chifre, é um método justo, e muito fácil de entrar um animal ali, o que é bom pra quem se interessa muito em ter seu troféu numa lista oficial.

Sistema Rowland Ward de medida de chifre de bufalo africano.
Sistema de medida de chifre de búfalo africano do SCI.

Voltando aos búfalos, no final do século 19, em 1890, houve uma epidemia de peste bovina que praticamente dizimou todos os rebanhos de búfalos da Africa, causou um declínio de 90% dos búfalos no continente, mas em 30 anos eles conseguiram se recuperar e ainda são relativamente abundantes aonde recebem algum típo de proteção contra caça ilegal, recentemente uma companhia de safaris arrendou uma concessão de caça em Moçambique, a famosa coutada 11, no delta do rio Zambezi, quando eles assumiram a coutada havia apenas 1200 búfalos, 44 antílopes Sable, e nenhum leão, hoje após mais de vinte anos de proteção continua por essa companhia de safaris de caça, existem mais de 3 mil antílopes Sable e os búfalos passaram de 25 mil indivíduos, hoje em dia você vê centenas de animais simplesmente dirigindo pela concessão, coisa que antes era impossível. A grande maioria dos búfalos selvagens é portador de febre aftosa, mas existia uma pequena população de búfalos que não portava a doença, eles viviam no parque nacional Addo, hoje em dia alguns desses animais tem sido criados e recebido sêmen de animais de outras áreas, com isso tem se multiplicado o numero de búfalos livres de aftosa, que chegam a valer muito dinheiro, um macho desses alcançou 11 milhões de dólares em um leilão. Entre os búfalos criados tem se conseguido animais com chifres de grande tamanho que são depois introduzidos em fazendas de caça para melhoramento do rebanho, como numa fazenda de gado de corte.

Búfalo reprodutor para fazendas de caça.

Hoje em dia o búfalo é o mais acessível dos “big five”, o mais abundante, e uma caçada inesquecível, sem dúvida quem caça um búfalo sempre vai querer caçar outro, nunca ouvi falar de uma caçada de búfalos fácil, ou sem emoção, sem dúvida é uma caçada que eu não vejo a hora de fazer de novo.

Luis Almeida

Luis Almeida

Formado em Zootecnia, na UNESP -Jaboticabal, fez cursos de animais silvestres na ESALQ, morou Africa do Sul e Zambia nos anos 90, trabalhou como aprendiz de caçador profissional nesses países, em 2004 se mudou para a Grécia e desde 2013 fica indo e vindo entre Brasil e Grécia, sempre caçando aonde tem oportunidade e pesquisando novos destinos de caça.

Um comentário em “O ultimo dos big 5, o búfalo.

  • 23 de junho de 2018 a 13:58
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    Bom dia

    Essa experiência de vida em prol da preservação de espécies e a capacidade do manejo de caça sustentável mostra que o futuro de muitos animais deverá ser garantido por esse seguimento que por muitos é odiando, talvez por falta de conhecimento ou simplesmente por pura bestialidade e faltabde bom senso, sustentando sua análise apenas na caça de um indivíduo específico sem analisar o bem a proposto a espécie.

    Estados Unidos também é outro país onde a preservação anda bem alinhado com a permissão e controle das espécies, rígidos processos de concessão garante a preservação e futudo dos animais.

    No Brasil, espécies endêmicas ou não, são casadas de forma ilegal motivadas essas caçadas muitas vezes a subsistência por falta de renda e baixa capacidade econômica em determinadas regiões ou simplesmente por acharem ser uma cultura, um esporte herdado e muitas vezes valendo o risco de ser preso. Não podemos esquecer dos caçadores que exploram com fins comerciais através de contrabando de espécies exóticas e esse processo é extremamente arriscado pela falta de padrão e controle.

    Espero que experiências bem sucedidas possam ser apresentadas por pessoas que realmente conhece o sistema para num futuro próximo poder-mos compartilhar experiências semelhantes.

    No Norte do Brasil temos búfalos que se tornaram pragas, javalis e javaporcos estão se espalhando por em todas regiões e a burocracia e demagogia aliada a vaidade esta trazendo prejuízos as lavouras em todo o país e também as espécies nativas, sejam da flora ou da fauna.

    Muito parecido com o sistema que proíbe o porte as armas que de forma criminosa não protege o cidadão, numa inversão que apenas garantiu mais segurança aos bandidos.

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